quinta-feira, 19 de abril de 2007

Nicarágua: ilha de Ometepe fica num lago que tem até ondas.





Nicarágua, julho de 2004. Naveguei pelo lago da Nicarágua para chagar à ilha de Ometepe. Este lago também é conhecido por Cocibolca, nome indígena cujo significado é “mar doce”. Também pudera, pois ele tem uma área de 8.600 Km². A ilha de Ometepe tem 250 Km² e quase 40 mil habitantes. Seu formato lembra o número 8, com um vulcão em cada lado. O Concepción, com 1.610 metros, e o Madeira, com 1.394.

Não pernoitei em Ometepe. Cheguei bem cedo para percorrer alguns lugares interessantes e voltar para San Jorge no mesmo dia e, de lá, seguir para Manágua. Desembarquei em Moyogalpa e praticamente dei a volta na ilha. Tomei um ônibus e fui até a praia de Santo Domingo. A areia era mais branca do que muitas praias que visitei no Caribe. Havia mais ondas do que na praia de Laranjeiras, na cidade catarinense de Balneário Camboriú. Lembrei-me disso porque o pessoal de lá costuma dizer que aquela praia parece um lago. Pode até ser, mas acho que dizem isso porque nunca viram o lago da Nicarágua. Quando o vento bate pra valer, então, quem der bobeira cai do barco. Dizem que até tubarão há nele – seria a única espécie deste peixe que mora fora do mar e teria vindo do Oceano Pacífico pelos 20 Km do rio San Juan.

Fiquei duas horas naquela praia de água doce. Mergulhei. A temperatura da água estava muito agradável, porém não tão boa quanto à da Playa Hermosa, no Pacífico costarriquenho. Almocei num restaurante à beira do lago e logo tomei o ônibus de volta. Teria que enfrentar pouco mais de uma hora de viagem numa estrada cujo terreno seria considerado super radical para uma competição de motocross. Ou quem sabe de bicicross. Falando em bicicleta, este é um importante meio de transporte em Ometepe. Mais do que isso, descobri que ela também é passageira.

O ônibus, que dificilmente atingia os 40 Km/h, fez uma das paradas, em um dos locais nunca identificados para tal finalidade. Em vez de entrar uma pessoa, entrou uma bicicleta. Alguém pagou adiantado o valor de uma passagem e entregou o veículo/passageiro ao cobrador, que o colocou no corredor. Vinte minutos depois, o ônibus parou em frente a uma casa. O motorista buzinou. Esperou um pouco, cerca de um minuto. Uma senhora se aproximou e recebeu a bicicleta das mãos do cobrador. Passageiro entregue no destino, viajem que segue. Saí de lá com a impressão de ter conhecido um pouco do espírito solidário dos habitantes daquela ilha.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Honduras: A civilização maia é misteriosamente fascinante.




Honduras, julho de 2004. As ruínas de Copán foram as primeiras que visitei entre as cidades maias que havia planejado conhecer. Pernoitei na cidade de Copán Ruínas. O albergue ficava a quase 2 Km das ruínas. Claro que fui andando. Lá pela metade do caminho, vi uma mulher caminhando a uns 40 metros na minha frente. Apressei o passo para não seguir caminho sozinho. Ao me aproximar, notei que parecia uma asiática. Pensei que ela não falasse espanhol. Mesmo assim, usei o idioma para perguntar se ela estava indo para as ruínas. Ela entendeu e respondeu na mesma língua. Fomos juntos. Conversamos muito e percorremos a antiga cidade maia, lado a lado, Haruko Omura e eu.

Claro que estava interessado em conhecer a maior quantidade de locais e objetos que estivessem ao meu alcance. E assim procurei fazer, junto à minha companheira de momento, a sorridente japonesinha. Mas eu fui com a idéia fixa de que não poderia deixar de ver o templo de Rosalila. Ela também queria muito vê-lo. Estava no seu guia. Japonês que é japonês não deixa escapar nada do que o guia indica. Exagero à parte, é mais ou menos esta a impressão que me passa o pessoal deste simpático povo asiático a cada vez que cruzo com alguém de lá.

Vimos o templo e quando íamos entrar no túnel para visitar parte do caminho subterrâneo que levava ao seu interior, percebi que havia comprado o ingresso que dava direito a quase tudo, menos a entrar naquele local. Então resolvi esperar na entrada até que a pequena nipônica fizesse a visita. Quando me viu ali parado, o guardo veio falar comigo. Bastou eu dizer que era brasileiro, ele abriu um largo sorriso e falou no baile que minha seleção havia dado na rival dele (O Brasil havia vencido a Costa Rica por 4 a 1). Perguntou se eu não entraria com minha amiga. Eu disse que estava sem ingresso. Isso não foi problema para um brasileiro disposta a conversar sobre futebol. A convite dele, acompanhei a japonesinha sem pagar aquela parte do ingresso.

À noite voltei a me encontrar com a japonesinha. Fomos jantar e escutar música num bar. Foi divertido. Haruko deixou minha mente prazerosamente habitada por aquela imagem de um sorriso fácil, de uma garotinha de uns 25 anos com muita vontade de falar, mas sobretudo de ouvir. Ela me contou que aprendera espanhol durante trabalhos voluntários pela Cruz Vermelha na América Latina, principalmente Nicarágua. Ouvi-la me fez lembrar dos filmes que traduzem as falas dos japoneses, tanto para o português como para o espanhol, e sempre trocam a letra R pela L. Não é que eles falam meio assim mesmo?!

terça-feira, 17 de abril de 2007

Costa Rica: o Vulcão Arenal foi um ótimo anfitrião




Costa Rica

Era 11 de junho de 2004. Típica tarde de domingo. Tinha até futebol na tv. Fui almoçar às duas horas da tarde. Escolhi um restaurante onde havia televisão, já que no aconchegante albergue que escolhi na cidade de La Fortuna não havia este luxo. Só eu de brasileiro entre cerca de 15 costarriquenhos. Alguns se arriscaram a me provocar, de forma muito cordial e em tom de brincadeira, dizendo que iriam derrotar a seleção do meu país. Como é bom estar num lugar onde as pessoas admiram alguma coisa do seu país, mesmo que seja tão somente o futebol. Não sei bem por que, mas minha autoconfiança nacionalista me dizia que o Brasil venceria com facilidade. Não deu outra. Derrotamos a Costa Rica por 4 a 1, com três gols de Adriano e um de Juan. O jogo valeu pela Copa América, disputada no Paraguai.

Além de torcer para o Brasil marcar mais gols, eu também torcia para que parasse de chover. Assim que terminou a partida, o guia turístico que eu havia contratado passou no restaurante para me buscar. Na van havia livre só o meu espaço. O restante estava ocupado por um grupo de estudantes estadunidenses que viajava para comemorar a conclusão do ensino médio. Não desisti de ir porque já havia pago a caminhada por um parque florestal que culminaria num mirante de onde poderíamos ver derramarem-se as lavas do vulcão Arenal. Andei debaixo de chuva ininterrupta por duas horas. Passado o desconforto inicial causado pelo clima, a caminhada valeu a pena, principalmente pela variedade de pássaros e vegetação. Também ouvi sons fortes e inusitados, produzidos por macacos, segundo informações do guia.

Foi tudo muito bom, não fosse a frustração de estar num mirante e conseguir mirar não mais que uns dez metros. A chuva havia acabado de cessar, mas uma espécie de nevoeiro tomou conta do lugar. Vulcão, nem pensar. Não era possível avistá-lo, o que dizer então da esperança de ver lavas escorrendo de suas bordas? Nada. Estávamos conformados. Faltava ainda a última atração incluída no pacote. Fomos a um local com piscinas de águas termais oriundas de um riacho da região. Dizem que aquela água era fria até 1968, quando uma forte erupção do Arenal mudou a paisagem e a tranqüilidade da região. Uma das mudanças teria sido o aquecimento do riacho, que motivou a construção de vários hotéis e clubes. Às vezes é bom fazer orçamentos e ver se não é vantagem fazer um desses pacotes oferecidos por agências locais para passeios na região. Esse tour valeu muito.

Já não chovia mais. Ficamos quase duas horas imersos na água quente, em piscinas rodeadas por uma bela paisagem. O céu ainda fazia cara feia, mas já nos permitia ver um pedacinho do vulcão. Quando começamos a pegar a estrada para voltar às nossas respectivas pousadas, o guia percebeu que o clima nos faria uma surpresa. Parou a van no acostamento e retornou. Ficamos ansiosos e contentes, mas a incerteza ainda tomava conta do ambiente. A viagem não chegou a cinco minutos. Paramos logo depois de uma curva em leve declive à direita, assim que as paredes de terra pararam de atrapalhar nossa visão. Descemos da van. Olhamos para o outro lado. Lá estava o vulcão. Atravessamos a rodovia. Suspense total.

Esperança total. Fixamos o olhar. Um barulho diferente vinha de longe. Era possível ouvir algumas explosões. O som parecia muito mais distante do que o vulcão. Não víamos lava nenhuma. Eis que de repente pedaços de fogo escorreram pelo morro. Incrível! Fantástico! Pela densidade, lembrava uma cobertura de chocolate que, recém colocada ainda mole, escorria bolo abaixo, pegando fogo.