sexta-feira, 4 de maio de 2007

Colômbia: vi muita coisa do país antes de chegar lá.


No aeroporto de Brasília o ar seco de julho ainda me deixava respirar expectativa. O ano de 2005 foi um dos mais secos dos últimos tempos no planalto central, clima ideal para o ataque da minha sinusite. Queria sair logo dali para respirar novos ares. Enquanto não chegava a hora de entrar na sala de embarque, eu pensava sobre o que havia lido a respeito de Bogotá, Cali e principalmente Cartagena. Também lembrava das coisas que cheguei a ouvir sobre fazer turismo na Colômbia. Você está louco? Vão pensar que você é traficante. O que tem lá além de cocaína? E por aí vai...

Claro que eu não pensava isso, mas não posso esconder o clima de curiosidade que se formava na minha cabeça, até com uma pontinha de preocupação. Certamente encontraria algo inusitado, muy raro. E a surpresa começou logo na primeira parte da viagem. Ao desembarcar em São Paulo, logo uma mulher tocou suavemente em meu ombro direito e perguntou se eu iria para Colômbia. Achei estranho, mas disse que sim e logo aceitei iniciar uma conversa. Senti que ali havia uma multidão de enigmas habitando uma só pessoa. Entre a pele negra aveludada e o sorriso marfim não seria impossível ver ternura, mas também imaginar planos diabólicos se remexendo atrás daqueles olhos que lembravam jabuticabas maduras.

A conversa começou pelo óbvio. Por que você perguntou se eu vou para Colômbia? Vi a capa do guia turístico, respondeu ela com uma obviedade que eu merecia ouvir. Como não conheço ninguém no Brasil, estava procurando uma pessoa para me falar alguma coisa sobre o país e principalmente sobre Brasília. Você está sozinha? Sim, fui a Brasília escolher uma casa para alugar. Então você vai morar em Brasília? Em setembro eu pretendo me mudar. Que bom, respondi com um entusiasmo que logo em seguida, não sei exatamente porque, tive a impressão de que deveria ser contido. A conversa havia se iniciado pelo óbvio, mas nem tanto. Então ela percebeu que faltava o principal e perguntou meu nome. Eduardo. E o seu? Me chamo Cláudia. Fiquei mudo por um longo tempo que durou quase um minuto. Voltei ao mundo real, mas não sem antes admitir que estava diante da constatação de uma coisa que eu somente conhecia por letra de música, a existência de pérola negra.

Almoçamos juntos. Encontrei alguém que falava mais do que eu, talvez porque tivesse mais coisas para contar. Ela achou logo alguém cuja curiosidade precisava se conter para não tentar ultrapassar aqueles seios que olhavam tão de frente, tão fixamente dentro dos meus olhos, que deixariam encabulado até o maior dos despudorados. Se era alguém disposto a conversar que ela procurava, não teria feito melhor escolha, principalmente porque eu estava ávido por saber mais coisas sobre a terra de Gabriel García Márquez. Aliás, se ele a conhecesse, Macondo não seria a mesma. Para minha sorte, ela estava mais interessada em falar de si do que perguntar sobre Brasília, como havia dito no início.

Chegou a hora do embarque. Assim como de Brasília para São Paulo, a Varig estava pontualíssima para partir rumo a Bogotá. Nossas poltronas não eram próximas, mas bastou um simples pedido e o homem que estava ao meu lado aceitou trocar seu lugar para que Cláudia sentasse perto de mim. Para minha surpresa, ela falava com a intimidade de uma conversa entre melhores amigos. Disse que morava em Barranquilla e tinha uma fazenda de gados, perto de uma cidade chamada Mompós, a umas cinco horas de carro de Barranquilla. Mompós tem cerca de 33 mil habitantes e foi construída no século XVI. Dizem na Colômbia que pouca coisa mudou desde então. Quem já leu Cem Anos de Solidão e conhece Mompós afirma que o lugar lembra muito as descrições de García Márquez sobre Macondo, desde a arquitetura às altíssimas temperaturas.

Ainda a bordo, entre música e cinema, comida, bebida e muita conversa, Cláudia me convidou para visitá-la em Barranquillha. Mesmo tendo a impressão de que ela havia me convidado por educação, esperando que eu respondesse não, aceitei na hora. No aeroporto de Bogotá nos despedimos. Cláudia me passou seu endereço e seguiu de avião para sua cidade. Depois de quase uma hora na fila para entrar oficialmente no país, carimbei meu passaporte e tomei um táxi para o albergue. Chegava a hora de conhecer a Colômbia de verdade.

Em breve...

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